Para tu (ou palavras esparsas num rito de enamoramento)

excorgitações

Sofia

Pediste-me (exigiste-me) palavras e apenas consegui oferecer-te gestos. Ainda que puros e genuínos. Mas tu precisavas do verbo. Ansiavas por uma prosa suscetível de serenar as tuas ansiedades (como se a palavra te pudesse oferecer tranquilidade). Dediquei-te um sorriso plácido, mas imploravas vocábulos. Intensos, totais, profundos.

 Presenteaste-me tempo. Para me procurar na imensidão do meu eu. Reencontrar-me (encontrar-me, quiçá, porque provavelmente num tinha sido eu!). Indagar o nós!

 Foi premeditado? Ou estavas tão perdido quanto eu?

Regressei sem nunca ter partido. Mais eu. Completamente eu. Toda, inteira, como no poema. Inapta para fazer versos. Sempre fui gaja (miúda) de prosa. E de diálogos, muitas vezes mudos. 

 Timidamente falei. Até por escrito, em papel, como no antigamente. Faltou o carimbo, mas escrive-te com selo. Verde. Como a esperança. 

 Compreendi (finalmente) que não basta mostrar e ser. É preciso dizer. Que nada é mais eloquente que a simplicidade dos pequenos nadas. Que o nada é o tudo. 

 Gostaste? (gostas-me?) 

 

 

Helena Dias no pódio

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Foto: Firmino Paixão – Diário do Alentejo

ars atletica

Helena Dias nasceu em Lisboa (1954), licenciou-se em Ensino Básico e em Desporto. O gosto pela cultura e pelas artes levou-a a tirar um curso de Estudos Franceses, Ingleses e Alemães e um em História da Arte. Foi professora no 1.º/2.º ciclos e de Educação Física. É técnica superior, no Município de Serpa, dando aulas de Hidroginástica, mas é na Patinagem Artística que o seu percurso profissional se tem destacado mais.

Começou a praticar desporto aos 3 anos de idade, e até aos 18, passou por diversas modalidades, que, entende, se complementam: Ginástica Rítmica, Natação, Atletismo e, principalmente, Patinagem Artística (SLB). Foi também praticante de Ballet (Companhia Nacional S. Carlos), e, como patinadora participou em provas regionais e nacionais, e ainda no Campeonato do Mundo de Patinagem Artística, em 1971 (Barcelona).

A partir dos 15 anos foi monitora de Patinagem Artística no SLB, e aos 18 passou a treinadora. 5 anos depois troca de clube, passando a integrar o SCP, em paralelo com o FCP. Entre os 20 e os 35 anos deu apoio, como treinadora, em Rio Maior, Infante Sagres, Gondomar, CPSG Porto, Sassoeiros, Oeiras, Colégio Minerva/Barreiro e Serpa, nesta última localidade, como treinadora principal, desde os 30 anos, fixando aqui residência em 1999.

Como treinadora de Patinagem Artística formou inúmeros campeões nacionais e patinadores de craveira internacional, com atletas presentes regularmente em provas regionais e nacionais, com vários lugares de podium, e diversas vezes em campeonatos europeus e mundiais, também com lugares de podium. No Alentejo, passou pelo Conselho Desportivo Municipal de Serpa, pelo Futebol Clube de Serpa e, entre 1999 e 2016, pelo Sport Clube de Serpa. Desde então é Treinadora da modalidade no Clube de Patinagem de Beja.

Treinadora, Preletora em Seminários Nacionais e Internacionais, Juiz (nacional e internacional), com valência para todas as disciplinas da modalidade de Patinagem Artística, e Selecionadora Nacional, durante 15 anos, Helena Dias está no podium do Expoente M este mês.

logoMTem a vida que idealizava?

Em termos desportivos, sim. Houve possibilidade de ligação constante à Patinagem Artística, a modalidade de eleição, apesar de não ser possível fazê-lo a tempo inteiro, como gostaria. Pessoalmente, a dedicação maior àquela causa prejudicou em muito a estrutura familiar, e a vinda para o Alentejo, com o subsequente afastamento da área de residência, agravou ainda mais essa situação. Foi uma opção que levou a que o casamento fosse com o desporto, principalmente o desporto sobre rodas.

logoMA intervenção/participação na sociedade deve ser uma preocupação de todos?

Seja qual for a área de trabalho, local ou momento, seja no indivíduo ou no coletivo, há sempre algo em que se possa intervir por forma a desenvolver ou melhorar a sociedade em que vivemos. Tanto nas grandes, como nas pequenas coisas, essa deve ser a prioridade.

logoMComo vê a conciliação, atualmente, da vida profissional/desportiva e familiar/profissional?

Para o atleta/estudante, é cada vez mais difícil conciliar a vida desportiva com o estudo, uma vez que o tempo passado na escola é cada vez maior, e o trabalho pós-escolar, também. No caso dos universitários a estudar fora das suas áreas da sua residência, na maior parte das vezes, chega mesmo a ser o motivo do término antecipado de uma carreira desportivo, mesmo que esta tenha sido, até aí, plena de sucesso.

 Para o treinador, exceto quando este faz do desporto a sua profissão, torna-se muito complicado, tanto quando se dedica a escalões de formação, como quando o faz com escalões de competição. É necessário muito tempo de trabalho, tanto no local, para o treino efetivo com os atletas, como a posteriori, na preparação do trabalho a efetuar com estes, para conseguir alcançar um bom resultado. Muitas vezes, após um dia dedicado à profissão, e mais umas horas dedicadas ao treino, essa “terceira” parte é difícil de concretizar.

logoMNa sua vida existe equilíbrio entre essas várias áreas da sua vida?

Nenhum. Digamos que do bolo, apenas uma fatia pertence à vida familiar. É, talvez, uma benesse para os atletas com quem trabalho. É um pedido enorme de desculpas à família, que espero poder compensar a curto prazo.

logoMJá sentiu que a sua afirmação profissional e/ou pessoal foi dificultada ou condicionada por ser mulher?

O facto é que a Patinagem Artística é um mundo maioritariamente feminino, daí que a condição mulher, neste caso específico, seja até um benefício. Condicionados e estigmatizados, neste caso, são os atletas do sexo masculino, só mesmo enquanto tal, pois os que se dedicam à modalidade como treinadores, supõe-se que já usufruam de outra condição.

logoME como atleta, sentiu dificuldade na sua afirmação e/ou na compatibilização com a vida profissional e familiar?

A atleta, não teve qualquer problema familiar, uma vez que sempre foi integralmente apoiada e incentivada à prática desportiva. Para além da Patinagem Artística, ainda houve acesso a modalidades complementares como Ginástica Rítmica e Acrobática, Atletismo e Bailado.

logoMAs mulheres partilham pouco, guardam muito para si?

Será a partilha uma questão de género, ou de cultura, oportunidade e experiência?

logoMO que é preciso para que as mulheres possam ver garantido o seu direito à igualdade?

Serem elas próprias a afirmar esse direito, lutando sempre em todas as frentes pelo seu lugar de parceria, e elevando os seus trunfos ao expoente máximo.

logoMComo podem as mulheres contribuir para a concretização dessa Igualdade?

Continuando a evidenciar-se como indivíduos e como grupo.

logoMQual é o seu maior sonho?

A nível desportivo, ter possibilidade de criar uma Fundação para o Desenvolvimento da Patinagem Artística, onde o atleta pudesse estudar e praticar esse desporto, com as vertentes inerentes à sua boa prática, em regime de externato ou internato, desde o 1º ciclo, até ao 3º, podendo manter a via desportiva mesmo quando estudante universitário.

Saber mais: Diário do Alentejo

Ain’t Got No/ I Got Life

O amor à sexta-feira!

Nádia Mira

“Se eu não gostar de mim quem gostará?” já foi slogan de uma marca de lacticínios e transformou-se numa espécie de mantra de autoestima que quase todos, com maior ou menor grau de convicção, já evocámos.

Se é verdade que o amor-próprio não é per si garante de que os outros nos olhem com maior afeição, é inegável que a sua inexistência potencia o perpetuar de relações sociais e interpessoais disfuncionais.

“Ain’t Got No/ I Got Life” é um verdadeiro apelo à valorização pessoal. Lançada em 1968, por Nina Simone, integra o álbum “’Nuff Said!” e é um medley das canções “Ain’t got no” e “I got life” do musical “Hair”.

Nina Simone, nome artístico de Eunice Kathleen Waymon, ícone do jazz e da soul, aliou à excelência musical um ativismo pouco visto à época no que respeita aos direitos civis da comunidade negra.

Em “Ain’t Got No/ I Got Life” a cantora começa por evocar tudo aquilo que não possui para de seguida exaltar o que tem e que ninguém lhe poderá tirar. O processo de negação, acompanhado pelo instrumental em crescendo, funciona como escada para finalmente vislumbrar o que realmente importa: a liberdade e a vida!

A música abrange uma larga paleta de emoções e mensagens sociopolíticas, as mesmas que Nina tão magistralmente traduziu num vasto repertório de gravações e performances ao longo de uma carreira de mais de quatro décadas.

Nina Simone foi literalmente a voz do movimento negro americano e hinos como “Ain’t Got No/ I Got Life” eram responsáveis por acalmar os ânimos e os corações dos que tudo perdiam na lógica violenta e separatista que então se vivia (felizmente, e como podemos observar todos os dias nas caixas de comentários do facebook, não existem problemas raciais em Portugal).

“Ain’t Got No/ I Got Life”, mais do que uma canção, é uma celebração e relembra-nos que há sempre razões para escolher o lado positivo da vida, não importa o quão difícil se afigure o caminho que temos pela frente.

É sexta-feira, usemos sem parcimónia do mais inestimável bem que possuímos – a liberdade! – empreguemos as nossas melhores qualidades na quebra dos grilhões que teimamos em deixar que nos acorrentem e meio caminho para o amor já estará feito!

Ai Rosa dói-me tudo!

A Rosa

Madalena Palma

Sabes Rosa estou precisar esvaziar o peito para que caiba mais qualquer coisa a não ser ansiedade.

Os dias aproximam-se a passos largos e só tenho vontade de agarrar o chão com unhas e dentes como se isso servisse de alguma coisa para parar o tempo.

Bom…aqui vai: quando o senti a primeira vez na barriga pensei que fosse uma verdadeira borboleta. Quem me dizia a mim que iria ser uma linda crisálida ao longo de 20 anos e apenas lhe nasceriam as asas aos 21 para voar para longe do casulo.

Ao longo dos anos pensei que tinha de ir levantando as saias, uma a uma, devagar, muito lentamente, dando-lhe cada vez mais liberdade para respirar um ar diferente do meu. É certo que agora estou completamente exposta a um frio que nunca pensei sentir. Um frio sinónimo de ausência, saudade, distância. E como raio vou aquecer todos estes sentimentos ao longo de 5 meses? Os que cá ficam é que vão aturar as agruras de uma mãe que sofre as saudades de um filho que está a 3219 quilómetros de distância. Enfim, tenho fé nos alicerces que criei ao longo dos anos, nas asas que estão firmes e cheias de carácter mas acima de tudo cheias de vontade de descobrir um mundo cheio de coisas novas, horizontes distantes mas com linhas grossas de conhecimentos. Estou orgulhosa obviamente, e sei que tudo vai correr bem mas Rosa, onde é que vou arrumar, ao longo de todos esses meses esta angústia de não estar a meia dúzia de minutos?

Acho que me vão aquecer as chamadas ou as mensagens a perguntar como se liga a máquina da roupa, ou o que deve fazer para comer, ou se faz mal misturar roupa branca com a roupa de cor.

Ele está precisamente com a mesma idade com que me chegou aos braços e é nisso que tenho de pensar. A vida faz-se de conquistas e quando a casca cai e ganham asas os nossos filhos levam com eles tanto do que aprenderam connosco e muito do que são de nós. E a nós…resta-nos abrir as mãos e aplaudir o caminho que farão separados de nós.

Ai Rosa, e eu a pensar que as dores de crescimento passavam com a idade. Que raio. Dói-me tudo principalmente parte do cordão umbilical que está a dias de cair pela metade.

 

“O que há em mim é sobretudo cansaço – Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada: Cansaço assim mesmo, ele mesmo, Cansaço.”*

carrossel dos esquisitos

Ana Ademar

Ando numa fona e não sei para que lado me vire.

As festas que se desejam “boas” se alguma coisa, foram cansativas. Divertidas é certo, mas muito trabalhosas e não é que me esteja a queixar, só constato.

Depois é o frio estupidamente exagerado (sim, é Janeiro, eu sei, mas a pessoa pode queixar-se ou não?) que me faz andar encolhida, que por sua vez me provoca dores não muito específicas. Depois são os pés sempre gelados e a estúpida mania de achar que se puxar as meias para cima fico mais quente, quando obviamente só me vai provocar uma dor excruciante nos dedos dos pés por estarem dobrados ao meio o dia todo. 

Preciso de férias e o ano ainda agora começou. Ando cansada e não sei se isto anda tudo ligado, mas o facto de ser janeiro não ajuda. Não sei porquê, foi uma coisa que me apeteceu dizer. 

Quase todos os dias tenho tido ideias de coisas que queria fazer. Depois penso e rapidamente chego à evidente conclusão de que não tenho tempo e depois fico triste e tento pensar noutra coisa menos ambiciosa. E vou de projecto em projecto, de ideia em ideia sem concretizar nada, acumulando mini-frustrações auto impostas e perfeitamente escusadas e inúteis. 

E começo a descascar o tempo. Quero dizer que tento perceber onde ele se esvai. Onde o perco. Quero dizer, para onde desaparece ele quando faço contas à vida do meu tempo e percebo que ele praticamente não vive, o tempo. Quero dizer, o tempo que tenho uso-o no trabalho, a preparar o trabalho, a dormir e não sei para onde vai o resto. E não quero dizer que seja uma moira de trabalho sem tempo para nada, porque os outros têm tempo, só o meu é que não chega e eu não provavelmente não trabalho mais que os outros. Quero dizer, não devo trabalhar mais que os outros todos. Mais do que alguns, sei que sim. E não me estou a queixar, constato. Constato. Constato que o tempo é pouco, a vida é curta e eu para aqui ando adiando projectos, matando ideias porque o tempo não chega e os meios são escassos. E constato. Constato. Constato que já é tarde para algumas coisas. Que não vão acontecer. E constato. Constato que deve ser isto a velhice. Que não é o início dela, é a própria já instalada nos ombros habituados a encolher quando abdicam de mais uma qualquer ideia, provavelmente parva, provavelmente sem pernas para andar, mas uma ideia que seria bom perseguir até que se desfizesse no ar de tão insubstancial. 

Quero dizer, não é que esteja velha. Não estou. O tempo, esse ainda me desaparece sem que dê conta e parece que com os velhos é o contrário: sentam-se à espera que passe e ele não arreda pé. E ainda preciso de dormir muito e diz que os velhos não. Por isso, velha não estou. Mas estou qualquer coisa. E isto devem ser dores de crescimento. Quero dizer, de crescimento não serão, de envelhecimento talvez. Mas não estou velha. Quero dizer, sou nova ainda. E tenho bom aspecto. Na maior parte dos dias em que saio de casa. Sinto-me nova, mas sem tantas possibilidades, será isso? Constato, só constato. Não lamento. Ainda. Pode vir o lamento aí nas linhas de baixo, não me comprometo. 

Quero dizer que há coisas que já não farei ou que dificilmente farei ou me acontecerão. Não que haja alguma frustração, não há. Tenho é medo. Medo de um dia descobrir que afinal o que eu queria mesmo era, por exemplo, ser apresentadora do Curto Circuito e para isso já não vou a tempo. 

E não é bem fazer as pazes com isso, porque não estou zangada. Ando a tentar averiguar dentro de mim se há alguma frustração. Alguma vontade ainda não satisfeita, algum desejo reprimido que ainda vá a tempo de satisfazer antes que seja tarde. E assim de repente, não estou a ver. Constato. Constato que um dia gostava de correr uma maratona. Mas é só um dia, não é agora. Para já, a vontade não é assim tão grande e sei que mesmo velha, é possível um dia decidir, dedicar-me e conseguir -já aconteceu, eu vi no facebook. Por isso aguardo pelo dia em que acordarei com vontade de fazer desporto (nunca aconteceu), ainda tenho tempo. 

Não tenho plano a longo prazo. Constato. Constato que nunca tive. Sempre achei que havia tempo. E não, afinal não é assim tanto. E não estou azeda ou queixosa. Constato. Constato. Talvez um pouco queixosa, constato. Quero dizer que podiam ter avisado que era assim. Que a vida muda muito. Quero dizer a gente muda muito. Com a vida. Ou não, não sei. Mas constato. Apenas constato que as coisas mudam muito e de repente já não identifico o que me rodeia e é difícil fazer reconhecimento e decidir coisas. E eu nunca fui boa a decidir. Mas chega uma altura em que o ralenti não é bom guia. Quero dizer. Constato.

* O título é extremamente exagerado quer em relação ao texto que precede, quer em relação à sensação que o provocou, mas em todo o caso é sempre bom citar Álvaro de Campos… 

Excerto do poema “O que há em mim é sobretudo cansaço” de Álvaro de Campos

 

Love is the drug

O amor à sexta-feira!

Nádia Mira

As dependências têm como característica central a falta de controlo do impulso que leva o indivíduo a consumir uma substância, de forma contínua ou periódica, para obter prazer ou satisfação, colocando não parcas vezes em causa o seu bem-estar físico e emocional.

Só quem nunca se apaixonou pode duvidar que o amor é uma das drogas que maior dependência causa. Quem o sabe, e não tem dúvidas em proclamá-lo, é Bryan Ferry.

“Love Is the drug” é um single de 1975 do álbum “Siren”, quinto álbum de estúdio da banda inglesa Roxy Music.

O tema é certamente um dos mais populares dos Roxy Music, alcançando o número dois do “Singles Chart” no Reino Unido, apenas mantido fora do topo com o relançamento de “Space Oddity”, de David Bowie. Mais tarde, em 1981, os Roxy Music alcançariam o primeiro lugar da tabela com a cover de “Jealous Guy” de John Lennon.

“Love is the drug” foi a confirmação da brilhante e inimitável capacidade dos Roxy Music criarem um ambiente superlativo de romance lúbrico.

A ideia da música começou com um instrumental de Andy Mackay (saxofonista da banda) sendo Bryan Ferry o responsável por criar a letra. Tanto lírica como musicalmente “Love is the drug” emana uma certa elegância decadente que é fácil encontrar à sexta à noite.

A cativante batida metálica foi atmosfericamente compensada por uma envolvente linha de saxofone que, estranhamente, combina na perfeição com a alegre discórdia das urbanas buzinas que pontuam a canção. Porém, em “Love is the drug” é a pulsante linha de baixo, a cargo de John Gustafson, que sobressai e se afirma como coluna vertebral da canção.

A música é uma das incluídas na seleção “The Rock and Roll Hall of Fame’s 500 Songs that Shaped Rock and Roll” e a sua linha de baixo figura no vigésimo sexto lugar da lista “Top 50 Basslines of All Time” divulgada em 2005 pela revista Stylus.

“Love is the drug” remete-nos para a interminável e cinematográfica emoção da vida e do amor nas ruas da cidade e soa a carros a partir e a luz púrpura, a olhares provocantes e a gins tónicos, ao virar de esquinas e a encontros de casa de banho, soa a amor e soa a urgência.

É sexta-feira, evitemos a ressaca da abstinência e entreguemo-nos ao impulso em doses excessivas… porque no amor não haverá nunca lugar para terapêuticas de substituição!

a senhora que se segue: Elsa Bicho

Foto livro

Elsa Marina Galamas Bicho nasceu em 28/09/1977 e é natural de Beja. Estudou  Ciências da Comunicação, na Universidade do Algarve, e, depois de integrar a redação da Rádio Voz da Planície, decidiu ir para Lisboa tirar curso de aperfeiçoamento em rádio no Cenjor. Acabou por ir estagiar no jornal A BOLA, onde permaneceu 18 anos, como jornalista desportiva. Assinou inúmeras páginas de histórias, sendo a reportagem o seu estilo jornalístico de eleição. Recentemente foi diretora de Comunicação do Casa Pia Atlético Clube (Liga Pro) e o seu primeiro livro, ‘O porteiro do Elefante Branco’, foi lançado em novembro último.

Elsa Bicho é mãe da Caetana, com 9 anos, mulher do diretor geral da Belenenses SAD, filha mais nova do Sr. Bicho da conhecida loja bejense Louça dos Compadres, e é a Senhora que se segue no Expoente M.

logoMTem a vida que idealizava?

Não. Não tenho do que me queixar mas também não nos devemos contentar, certo? Sou feliz no papel de mãe de uma Caetana que é um furacão em forma de criança. Já vivi muitas pequenas conquistas, sendo isso a que chamamos felicidade, ou não? Pequenos momentos, pequenos prazeres e consagrações. A vida que idealizava, ao deixar o Alentejo, seria de transformar-me numa renomada pivot de televisão. Tal nunca consegui. Mas o meu caminho trilhou-se de outra maneira que igualmente me envaidece. Não idealizo grandes luxos. A vida que, sim, idealizo é a de passar os dias a rir e a gargalhar, que é o que mais prazer me dá. E isso não pode acontecer sempre!

logoMA intervenção/participação na sociedade deve ser uma preocupação de todos?

De todos, sem exceção. Não podemos demitir-nos dessa função, porque existimos e a sociedade somos todos nós. Cabe-nos o papel de a transformarmos para que tenhamos qualidade de vida, oportunidades de sucesso e vivamos bem para deixar legado.

logoMNo seu caso como a pratica?

Recentemente comecei a fazer voluntariado, testemunhando de perto a realidade dos sem abrigo. Sou ainda vice presidente de um clube de bairro na Amadora – o Centro Desportivo Cultural e Recreativo dos Moinhos da Funcheira, associação que dinamizamos a pensar numa comunidade mais enérgica e no desporto (ginástica acrobática) para as nossas crianças. Tento ainda participar de eventos na minha área da comunicação e desporto de acordo com os intervalos das minhas obrigações profissionais.

logoMComo vê a conciliação, atualmente, da vida profissional e familiar/social?

Sei bem o que é a ginástica de ter de dar conta de tudo e sei bem o que foi ter de optar por não conseguir conciliar todas essas esferas. Deixei o jornalismo para poder acompanhar a minha filha. Só cá tenho os meus sogros, pessoas de idade, os meus pais estão em Beja, e, sendo jornalista de A BOLA, não tinha fins de semana ou feriados, nem conseguia ir buscar a miúda à escola ou aos treinos de acrobática. Tive de vir para casa para poder estar com ela. E não me arrependo. Mas, nessa altura em que a Caetana começou a escola primária, não havia hipótese de chegar a tudo, até porque o pai dela também é agente de futebol, ou seja, vive com total desnorteio de horários. Agora a minha prioridade é a Caetana. Talvez um dia volte ao jornalismo, talvez continue a escrever livros, talvez volte a ser diretora de Comunicação de um clube de futebol…

logoMNa sua vida existe equilíbrio entre a vida profissional e familiar/social?

Tive de procurar esse equilíbrio. Tive de abdicar da paixão que sempre foi o jornalismo pelo amor maior que é a família. Dói? Dói, mas vale a pena. E nas adversidades surgem as oportunidades. Como foi o Casa Pia Atlético Clube. Como foi o meu primeiro livro ‘O Porteiro do Elefante Branco’. Aguardo serenamente por nova oportunidade, certa de que esse equilíbrio de que fala tem de ser primordialmente acautelado.

logoMJá sentiu que a sua afirmação profissional e/ou pessoal foi dificultada ou condicionada por ser mulher?

Nunca. E atenção que sempre andei num mundo de homens. E comecei há 20 anos. O futebol deixou, entretanto, de ser tão machista mas chegar aos campos de futebol e tentar causar boa impressão para assegurar um bom trabalho não foi, de início, tarefa fácil. Naturalmente, havia sempre algumas boquinhas menos felizes. A verdade é que com respeito, simpatia e humildade consegue-se tudo. Ser mulher ou homem passa para segundo plano porque sobressai o profissional. Nunca senti condicionalismo algum.

logoMAs mulheres partilham pouco, guardam muito para si?

No meu caso, não. Gosto muito de partilhar acontecimentos pessoais, falo muito, tenho muitos amigos, não consigo esconder nada! Então nos segredinhos sou péssima! Mas concordo que muitas de nós, ou por receio ou insegurança, se assumem pouco, opinam pouco. Não será defeito mas feitio. E, diga-se em bom da verdade, a era digital veio revolucionar tudo isso. Agora todas comunicamos nas redes sociais. Expomos tudo. Muitas inverdades também…

logoMO que é preciso para que as mulheres possam ver garantido o seu direito à igualdade?

Só precisamos de continuar a dar mostras do nosso potencial e qualidade. Cada vez há mais mulheres nos altos quadros de empresas, cargos políticos e frentes sociais. O género já não é requisito. Capacidade, sim. Contra factos não há argumentos. A igualdade depara-se-nos já no dia a dia.

logoMComo podem as mulheres contribuir para a concretização dessa Igualdade?

Mostrando do que são capazes. Intervindo. Opinando. Desafiando. Brilhando!

logoMQual é o seu maior sonho?

Gostar um pouquinho mais de mim própria.