excorgitações
Sofia
Quando a Sónia me encomendou este texto, estava a desarrumar a casa, em pleno período de reflexão, porque aparentemente amanhã é dia de ir votar. Chamem-me volátil, mas não sou miúda para votar sempre nos mesmos. Decido voto a voto, em cada momento, de acordo com a eleição específica e valorizo mais as pessoas que os partidos, pelo que já terei votado na maioria dos partidos e, mais do que uma vez, não votei em partido nenhum (e houve mesmo uma vez que votei em todos ao mesmo tempo, porque não gosto de discriminar ninguém).
É sintomático que o local onde deposito o voto se chame urna, que o dicionário define como o vaso, de forma variável, que servia aos Antigos para guardar as cinzas dos mortos, que, basicamente, é o que sinto: depositado o dito, as promessas são cremadas, incineradas na espuma dos dias e mesmo quando tudo muda é com a condição de ficar igual ao que sempre foi.
Vi os debates na diagonal e tenho pena de não terem existido mais: ando numa fase de insónias e os debates resultaram melhor que o Valdispert. Não obstante tudo isso, insisto em ir votar, pelo que exijo de mim mesma uma reflexão consciente.
Ciente que amanhã o verão se aproxima, neste tempo bipolar, decidi-me por uma saia decentemente curta, mas estou indecisa sobre a cor: tenho uma vermelha, mas ainda há benfiquistas a comemorar e não gosto de me misturar com essa gente. Ponderei usar uma azul, mas tenho receio (daqui a pouco há uma final da taça de Portugal e tenho medo que amanhã o azul me dê azia). Podia levar uma azul mais clara, mas é uma cor que não se adequa a mim. Já tive uma saia rosa, mas há anos que foi para o lixo, enrolada com o vestido laranja que me dava arrepios. Não me comprometo! Lá irei, saltos altos sem cair no arco íris das cores, no meu vestido preto, cintado pela noção europeia de democracia…